À vista ou parcelado sem juros: como comparar de verdade
Descubra os juros que o parcelado sem juros esconde, compare com o que o seu dinheiro renderia depois do imposto e veja a partir de que desconto o à vista compensa.
A loja oferece R$ 1.800,00 à vista ou 10 vezes de R$ 200,00 "sem juros". Qual das duas formas custa menos? A resposta não está no tamanho do desconto, mas numa comparação: a taxa que o parcelado esconde contra o que o seu dinheiro renderia, depois do imposto, enquanto espera para pagar cada parcela. As regras de imposto citadas aqui são as do Brasil.
"Sem juros" quase nunca é sem juros
Quando o preço à vista é menor que a soma das parcelas, a diferença é o preço de pagar depois, ou seja, juro, ainda que a loja não use essa palavra. No exemplo, as dez parcelas somam R$ 2.000,00 e o à vista custa R$ 1.800,00: quem parcela paga R$ 200,00 a mais pelo mesmo produto. Existe o caso contrário, em que o preço é o mesmo nas duas formas. Aí o parcelado é de fato sem juros, e o dinheiro que fica aplicado até a última parcela só ajuda quem parcela.
Como descobrir a taxa escondida
A conta trata a diferença como um empréstimo. O valor financiado é o preço à vista menos a entrada, no exemplo R$ 1.800,00, e a taxa é a que faz dez parcelas de R$ 200,00 pagarem exatamente esse valor, com juros compostos. O resultado é de 1,96% ao mês, ou 26,27% ao ano, para um desconto que parece modesto: R$ 200,00 em R$ 2.000,00, os 10% de desconto à vista.
Dividir a diferença pelo preço e pelo número de parcelas daria um número bem menor, e é um erro comum. A cada parcela paga o saldo devedor cai, e os juros incidem sobre um valor cada vez menor, então a taxa verdadeira é mais alta que essa divisão simples. A página de conferência de contrato faz a mesma conta para um empréstimo comum, e o guia sobre o custo efetivo total explica por que a taxa efetiva é o número certo para comparar ofertas.
O que o seu dinheiro faria enquanto espera
Pagar à vista é abrir mão do dinheiro hoje. Parcelar é deixá-lo aplicado até o dia de cada parcela. Por isso a comparação não é entre R$ 1.800,00 e R$ 2.000,00, mas entre R$ 1.800,00 e o valor que você precisaria guardar hoje para pagar as dez parcelas nos dias delas. Esse valor é menor que R$ 2.000,00, porque o dinheiro rende no caminho, mas o quanto menor depende do que ele rende.
Com o dinheiro num depósito prefixado de 12% ao ano, tributado, guardar hoje R$ 1.919,22 paga as dez parcelas de R$ 200,00. Esse é o custo do parcelado em valores de hoje, e a comparação com o preço à vista fica assim:
| Preço à vista | Desconto | Taxa embutida | O que custa menos |
|---|---|---|---|
| R$ 1.800,00 | 10,00% | 1,96% ao mês | À vista, por R$ 119,22 |
| R$ 1.900,00 | 5,00% | 0,94% ao mês | À vista, por R$ 19,22 |
| R$ 1.950,00 | 2,50% | 0,46% ao mês | Parcelado, por R$ 30,78 |
O ponto de virada está em R$ 1.919,22, um desconto de 4,04% sobre o total das parcelas. Acima desse desconto o à vista custa menos; abaixo dele, o parcelado. O que decide é a relação entre as duas taxas: quando a que o parcelado embute é maior que o rendimento líquido do dinheiro, pagar à vista custa menos, e quando é menor, o parcelado custa menos.
O imposto muda o ponto de virada
O que paga as parcelas é o rendimento depois do imposto, não o rendimento bruto. Na renda fixa tributada, o Brasil cobra imposto de renda pela tabela regressiva, com alíquotas que caem conforme o prazo da aplicação, e por isso cada parcela tem a sua: a de daqui a um mês é paga com um dinheiro que rendeu pouco e pagou a alíquota mais alta, a de daqui a dez meses, com um que rendeu mais e pagou menos. O guia sobre quitar a dívida ou investir traz a tabela na regra em vigor quando foi atualizado.
No exemplo, os 12% brutos viram um rendimento líquido de 9,58% ao ano nos dez meses. Se o mesmo dinheiro estivesse num investimento isento, rendendo 12% ao ano, o custo do parcelado cairia para R$ 1.899,47 e o ponto de virada subiria para 5,03%. Em outras palavras, quanto mais o dinheiro rende, maior precisa ser o desconto à vista para compensar. As regras tributárias mudam: confirme as vigentes na Receita Federal ou com a instituição que oferece o produto.
O que a conta não vê
Uma comparação de taxas deixa de fora o que não é taxa. Antes de decidir, pese também:
- Liquidez e risco. O dinheiro aplicado para pagar as parcelas precisa estar disponível nos dias delas, sem multa de resgate nem perda de valor. A conta supõe que o rendimento é o de hoje até a última parcela, e um índice como o CDI se move.
- O dinheiro que não existe. Se pagar à vista exigir um empréstimo, a comparação passa a ser entre a taxa embutida no parcelado e a taxa desse empréstimo, e a do cartão de crédito rotativo costuma ser bem mais alta.
- Vantagens que a conta ignora. Pontos, cashback, preço que muda conforme a forma de pagamento e a possibilidade de negociar o preço ao pagar à vista ficam de fora.
- A reserva de emergência. Dinheiro que serviria de reserva não deve entrar na conta como se estivesse livre.
- Inflação. Parcelas fixas perdem valor real com o tempo, mas o rendimento nominal do dinheiro costuma embutir a inflação esperada. Para separar o efeito, veja o guia sobre a taxa de juros real.
Como o Finasst compara
Na página À vista ou parcelado, digite o preço à vista, a entrada, se houver, o número e o valor das parcelas, e diga como o seu dinheiro rende: taxa prefixada, percentual de um índice ou índice mais juros, tributado ou isento. O resultado aparece na hora, sem precisar de conta: a taxa que o parcelado embute, o custo dele em valores de hoje, quanto o à vista custa a mais ou a menos e o preço à vista que empata. A página apenas descreve o que as contas mostram, com as hipóteses que declara, e não recomenda uma forma de pagar.
Este guia é educativo e informativo. Não é consultoria financeira, jurídica nem de investimento e não conhece a sua situação. Os valores dos exemplos são ilustrativos, e as regras mudam: confira as vigentes antes de decidir. Aviso Legal